sábado, 26 de setembro de 2026

Pe. Winton Araújo — De Paulo Afonso para Salamanca: a fé que atravessa fronteiras

Por Jorge Holguera Illera / La Gaceta de Salamanca — adaptação do espanhol.

Nas terras do sertão baiano, onde as comunidades se tecem pela proximidade e pela partilha da fé, começou a caminhada de quem hoje leva a mesma dedicação aos povos de Salamanca, na Espanha. O padre e psicólogo Wilton Araújo, natural da Bahia, partiu para a Europa há 18 anos com o propósito de se licenciar em Teologia Pastoral pela Universidade Pontifícia de Salamanca — e acabou integrando-se à própria diocese salmantina, onde atualmente responde por sete parroquias, um convento de clausura e colabora com a Cáritas no atendimento a pessoas com dependências químicas.

Antes de cruzar o Atlântico, sua trajetória já estava profundamente enraizada na Igreja que serve o povo do interior. Após a ordenação, assumiu a Paróquia Sagrada Família, no Bairro Tancredo Neves, em Paulo Afonso-BA; em seguida, foi pároco de Banzaê-BA, entre 1997 e meados de 2001. Também prestou assistência à Pastoral da Juventude em Ribeira do Pombal, além de exercer a função de coordenador diocesano da PJ (Pastoral da Juventude), experiências que, reconhece, o prepararam para a amplitude do trabalho que hoje abraça.

"No Brasil, ao ser ordenado, eu atendia uma paróquia periférica com 55 mil habitantes, quatro igrejas e 14 comunidades rurais", recorda. Por isso, o número de comunidades sob sua responsabilidade não o assusta — embora a realidade seja muito diferente. "Na Espanha rural, a vivência da fé é fortemente sacramental, mas a população envelhecida torna a formação um desafio. Tudo se concentra no fim de semana, e o desgaste é grande", explica. O que renova suas energias é o contato próximo: "é a convivência com os vizinhos que impede o ministério de virar rotina".

Ele destaca diferenças profundas entre os dois contextos: «na Espanha, a religião foi marcada por décadas como norma social; no Brasil, a fé é mais missionária, comunitária, vivida como encontro. E, pela escassez de sacerdotes, os leigos assumem lideranças com plena autonomia há muito tempo».

Essa convicção guia seu trabalho: a união entre povos vizinhos é o caminho indispensável. "O futuro destas terras está na articulação. Se nos unirmos, celebramos juntos. Haverá menos padres e mais comunidades a cargo de leigos — e isso é riqueza", defende. Conta com quatro Ministros da Palavra e diversos ministros da Comunhão, formados ao longo de dois anos, que garantem a oração e a presença onde o sacerdote não chega.

O aprendizado, diz, foi humildade: "aprendi a ouvir e a esperar. Se uma proposta não faz sentido para quem vive aqui, mudamos. E deixo duas sementes: a vida comunitária como essência, e o encontro com Jesus vivo, para além de formalidades".

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